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Help – Revista Corpo & Alma

| SAIU NA MÍDIA

Para dar conta da vida que não cabe mais nas 24 horas do dia, a geração faz-tudo
finalmente aceita que vale, sim, pedir ajuda. Entre os coachings e terapias para
reequilibrar corpo e mente, tem até teste de tiro
Por Letícia Pimenta – Corpo & Alma

Não estamos doentes, mas os estados emocionais negativos e a falta de
equilíbrio do corpo e da mente muitas vezes nos impedem de viver como gostaríamos.
Como resolver? Para a geração faz-tudo, que foi criada acreditando equilibrar seus
pratinhos com a perfeição de um acrobata chinês, é preciso aceitar que não dá para
carregar o mundo nas costas. E, se o sinal vermelho acender, buscar ajuda para tratar ou
prevenir esses males – quem nunca? Até porque, há tempos, terapia não é mais coisa de
maluco ou de quem não sabe lidar com suas questões emocionais. O divã não é o único
caminho rumo ao autoconhecimento: hoje é possível analisar a personalidade e as
atitudes de uma pessoa até pela forma como ela atira (!).

Nunca tinha dado um tiro na vida até ser convidada pelo médico chinês Jou Eel
Jia (@dr_jou_eel_kia), um dos acupunturistas mais requisitados de São Paulo, a fazer o
teste inicial de seu coaching holístico: atirar em quatro pequenos pedaços de cartolina.
Sob a orientação de um de seus assistentes, usei uma arma de tiro esportivo com
chumbinho e me diverti sem fazer ideia de que forma aqueles furos no papel dariam
pistas sobre minha personalidade e como tomo decisões. “O tiro é o instinto mais
primitivo do ser humano. Quando saíam para caçar, antes do advento da arma de fogo,
nossos ancestrais deparavam com um animal e jogavam uma pedra para mata-lo. Esse
gesto já era o instinto do tiro: ou ele abatia o bicho ou morreria”, explica o doutor Jou,
como é conhecido entre seus pacientes.

O teste avalia nossas reações em diferentes situações, seja na vida pessoal ou no
trabalho, como podemos desenvolver melhor nosso potencial e como lidar com as
pressões do dia a dia. Em seguida, fazemos um segundo teste de função cerebral, deste
vez escrito, para identificar de que forma o órgão funciona na tomada de decisões.
Juntos, ambos são o ponto de partida das 20 sessões do coaching holístico do doutor
Jou, espécie de versão contemporânea para o Shiou Hsing (em português livre, “reforma
íntima”), combinação de artes marciais, pintura e escultura praticada nos templos
budistas da China feudal com o intuito de alcançar a evolução espiritual – mais ou
menos o que o Senhor Miyagi obrigava Daniel San a fazer em “Karatê Kid”.

O coaching holístico identifica nosso estado atual da consciência (Ch’i) e o
estágio que desejamos alcançar, aumentando a autoconfiança e quebrando bloqueios
emocionais para atingir nossas metas. É quase como uma sessão de psicanálise, mas, no
lugar da livre associação de ideias da terapia tradicional, o coachee elege os temas que
serão tratados em cada sessão a partir de uma lista prévia: saúde, dinheiro, trabalho,
família e por aí vai. Todo o processo dura cinco meses. “Muitas vezes é difícil, porque
as sessões mexem na nossa caixa preta, nos traumas e emoções passados, e reorganizam
tudo”, explica a coach Sandra Elias Lázaro, da equipe do Dr. Jou. A turma do divã sabe
bem.

Para quem pretende deixar a medicina tradicional como último recurso, as
terapias holísticas (ou complementares, como preferem os especialistas) ganham cada
vez mais respaldo científico. Graças a inúmeros estudos nas maiores universidades do
mundo, muitas perderam o estigma de esotéricas e tiveram eficácia comprovada, a
exemplo da acupuntura. “Elas surgiram não apenas como forma de prevenção de
doenças, mas de promoção da saúde. São baseadas em todo um conjunto de
conhecimentos ancestrais, como a medicina tradicional chinesa, a ioga, a fitoterapia”,
enumera o professor Ricardo Monezi, pesquisador do Núcleo de Medicina e Práticas
Integradas da Unifesp. Em sua tese de doutorado, ele estudou os efeitos do reiki em
idosos com estresse. Depois de oito semanas, a maioria apresentou melhora
considerável, e 40% deles enceraram o estudo sem nenhum sintoma.

Também na linha do coaching de autoconhecimento, a terapeuta holística Vivian
Frida Lustig (@vivianlustig) faz sucesso atendendo em seu espaço terapêutico no
Brooklin. Ela combina leitura de mapa astral à prescrição de florais que, acredita-se
atuam nas células reestabelecendo o equilíbrio energético do organismo. No lugar dos
florais de Bach, que operam somente na parte vibracional do ser humano (nossa aura),
Vivian usa os florais criados pelo alquimista Joel Aleixo. Produzidos com flores
brasileiras, são enriquecidos com sais minerais e pedras preciosas que ajudam a limpar
padrões de comportamento nocivos e traumas do passado. Nas consultas mensais, o
objetivo é eliminá-los para nos ajudar a realizar nossos objetivos de vida. “Muitas vezes
atendo pessoas que já conquistaram o mundo, mas chegam com aquele vazio que pode
ser interpretado como depressão ou síndrome do pânico. E aí vêm as perguntas ‘por que
estou correndo tanto?’, ‘por que estou fazendo tanto?’”, explica ela, que também atende
bebês, crianças e adolescentes.

O coaching de Vivian não é um tratamento, ressalta a terapeuta. Tem gente que
já se sente melhor logo nos primeiros dias tomando florais, outras têm insights mais
profundos e realizam grandes transformações em pouco tempo. “Mas nem sempre é
necessária uma mudança radical para você encontrar seu propósito de vida”, diz. Caso
de um empresário que estava infeliz sem saber exatamente o motivo. Nas sessões com a
terapeuta, veio a ideia de montar uma sala de meditação para os funcionários de sua
empresa. O rendimento da equipe melhorou, os funcionários ficaram mais felizes e ele
passou a trabalhar realizado. “Quando o ‘tudo posso’ perde o sentido é porque estamos
gastando nossa energia em algo que não tem nada a ver conosco. Trabalho essa energia
mal aproveitada para as pessoas tocarem seus projetos adiante”, resume.

Equilíbrio também é a palavra-chave de uma modalidade terapêutica recente no
Brasil para os padrões da terapia holística. O bodytalk chegou ao país em 2003, mas
ainda é pouco conhecido por aqui. Há apenas 43 terapeutas brasileiros certificados,
entre eles Márcio Ribeiro (99738-0727), que atende em São Paulo. Criado nos anos 90
pelo australiano John Veltheim, quiropara, acupunturista, filósofo e mestre reikiano, o
bodytalk é uma terapia manual que combina conceitos de neurociência medicina
tradicional chinesa e filosofia propondo um cuidado integral, que vai além do sintoma
físico.

A sessão começa com uma conversa sobre o histórico de saúde do paciente. Em
seguida, ele deita em uma maca e o terapeuta toca em seu pulso para estabelecer a
técnica de biofeedback neuromuscular, que se baseia na ideia de que o corpo tem uma
inteligência inata que contém todos os conhecimentos do indivíduo. Assim, o terapeuta
consegue se comunicar com o corpo do paciente por meio de perguntas mentais,
identificar o que está errado e o que deve ser corrigido.

Cada sessão tem uma hora de duração e termina com leves toques na cabeça e
altura do coração. Em média, são necessárias de três a cinco sessões para obter
resultados. Sem restrição, a técnica pode ser aplicada até em bebês e promete resolver
quadros de saúde que vão de dores crônicas a alergias, passando por diabetes,
problemas de fertilidade e, claro, questões emocionais e existenciais. “Trabalhamos a
chamada integração dos três cérebros: da cabeça, do coração e dos intestinos”, diz

Márcio Ribeiro. Como ensina o sábio provérbio chinês, nada assenta melhor ao corpo
do que o crescimento do espírito. Alguém ainda discorda?

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