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A responsabilidade é sua! Por Dr. Jou Eel Jia

| BEM ESTAR

“Onde é que esse mundo vai parar?” O desabafo, entonado com indignação, partiu de uma senhora que ocupava um dos últimos lugares de uma extensa e morosa fila no supermercado. O resmungo, vale esclarecer, nada tinha a ver com a impaciência geral que tomava conta do ambiente, mas com uma cena que se desenhava logo atrás dela. Sentada em uma cadeira de rodas, uma mulher esperava pacientemente sua vez de ser atendida.

Inconformada com a negligência dos funcionários do lugar – que nada faziam para cumprir a lei que garante prioridade no atendimento aos deficientes -, a senhora voltou-se para ela e, num suposto esforço solidário, engatou um discurso acalorado que teve início com a difamação do estabelecimento e acabou no descaso do poder público. Pouco a pouco, as pessoas que estavam por perto foram aderindo silenciosamente ao protesto, balançando a cabeça em sinal de concordância e deixando implícita sua indignação.

A fila foi andando, as bufadas continuaram e, ao chegar minha vez, qual não foi a surpresa ao me dar conta de que, depois de tanto barulho, o caso seguiu sem solução: a moça da cadeira de rodas havia acabado de alcançar o caixa da fila ao lado, ainda atrás da senhora que organizou o piquete. A preocupação em apontar o dedo para possíveis culpados foi tão grande que as pessoas esqueceram de assumir a pequena responsabilidade que lhes cabia sobre o fato, ou seja, ceder seu lugar na fila.

Espantosamente, não ocorreu a ninguém ali que a vida daquela mulher não se tornaria mais digna por causa de um eventual processo contra o estabelecimento ou uma passeata para chamar a atenção do governo – soluções esbravejadas pelas pessoas durante o tumulto. Bastaria uma ínfima contribuição de cada um e pronto! Ela não teria esperado todo aquele tempo na fila do supermercado.

Reclamações são válidas, mas, desde que sejam a alavanca para ações concretas. Resmungar por resmungar só dá a falsa sensação de que estamos fazendo algo. Se você chega em casa e os objetos estão fora do lugar, de que adianta esbravejar? Enquanto não arrumá-los, eles continuarão ali.

Com a vida é igual. Quando algo a incomoda e você sabe como resolver a questão, é sinal de que a sua contribuição está sendo requisitada. Onde é que esse mundo vai parar? Onde a gente deixar que pare, pois nós somos o mundo, o que significa que, a exemplo da fila, nada fica estático se nossas ações abrirem caminho para pequenas mudanças.

 

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