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Tempo não é dinheiro Por Dr. Jou Eel Jia

| BEM ESTAR

Já reparou que ultimamente não nos damos tempo para nada? Levantamo-nos da cama sobressaltados, com a eterna sensação de que estamos atrasados para a vida. Tomamos café tensos, cronometrando os minutos gastos para engolir o pão e o jornal. Alguém da casa tenta puxar conversa. Em vão. Nossa atenção está ausente, refém dos ponteiros do relógio da parede que avisam que é hora de ir para o trabalho. Saímos de casa correndo já pensando no trânsito que podemos pegar no caminho. Na rua, um vizinho acena com simpatia. Cumprimentamos de longe e tratamos de entrar às pressas no carro para não correr o risco de perder tempo batendo papo.

Parece-me que nos acostumamos com a triste ideia de que tempo é dinheiro e não mais prazer, diálogo, convivência. Devo confessar que o alerta não veio de um sábio mestre budista durante um retiro espiritual nas montanhas do Tibete, mas de um desses e-mails coletivos que me dispus a ler rapidamente entre uma consulta e outra, com o objetivo prático de limpar a caixa de correio.

A mensagem trazia a história de um menino que tinha tudo, menos a atenção da família. Os pais saíam cedo para trabalhar e só chegavam tarde da noite, quando ele já estava na cama. Mesmo com sono, o menino mantinha-se alerta. Bastava um barulho na porta e ele já se punha de pé, recolhia alguns brinquedos pelo quarto e descia a escada correndo, ansioso para brincar com os pais. Sempre exausto, o casal tentava distrair o filho com alguns afagos e a promessa de ter mais tempo no dia seguinte. De manhã cedo, lá vinha ele carregando desajeitadamente uma grande caixa de brinquedos, mas todos saíam apressados, alheios às promessas feitas na noite anterior.

A cena chegou a se repetir várias vezes e, em uma delas, o menino veio descendo as escadas sério, com um porquinho nas mãos. Os pais foram logo explicando que estavam cansados e que no dia seguinte… sem deixar que eles terminassem o discurso que ele já conhecia bem, foi dizendo: “Um dia, ouvi vocês falando que ganham vinte reais por hora de trabalho. Fui juntando o dinheiro do lanche e tenho quarenta reais neste cofrinho. Será que podemos brincar por uma hora?”.

Sabe aquela sensação recorrente de que estamos sempre atrasados para tudo? Penso que talvez não estejamos perdendo a hora dos compromissos, mas da nossa própria vida que, por força das circunstâncias, acaba sendo mais vendida do que vivida. Da próxima vez que olhar no relógio, não saia correndo, permita-se ficar mais um pouco e deixar ali um carinho, uma palavra, um gesto. Lembre-se de que a hora de viver, ser feliz e fazer os outros felizes é sempre agora. Que tal sermos mais pontuais com ela?

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